O rock underground da banda Ludov

segunda-feira, 2 de maio de 2011
Ser uma banda independente pode ter seu lado positivo, mas seguir pela cena underground não é nada fácil, principalmente porque muitos talentos ficam ocultos e têm o reconhecimento tardio do grande público. O Ludov é dessas bandas que se ouve falar pouquíssimas vezes, a maioria das pessoas acabam descobrindo por acaso. O trabalho da banda eu já conheço há algum tempo, seus clipes tocavam muito e ganharam alguns prêmios nos velhos e bons tempos da MTV, gostei do estilo deles desde a primeira vez que ouvi.

Recentemente a banda voltou a ganhar destaque por abrir os shows de Roxette em São Paulo. O sentimento nostálgico tomou conta de mim e resolvi falar um pouco deles por aqui. O Ludov lançou seu primeiro disco em 2005 “O Exercício das Pequenas Coisas”, pela Deckdisc. Apesar do sucesso de canções como “Princesa” e “Dois a Rodar”, o segundo álbum, “Disco Paralelo” de 2007, acabou sendo lançado pelo selo independente Mondo 77, e eles voltaram à cena underground. Esse álbum foi considerado por críticos e fãs o momento auge do Ludov, pelas canções maduras e a produção cuidadosa de Chico Neves (o mesmo de Skank, Paralamas do Sucesso, Los Hermanos, O Rappa). Em 2009 a banda lançou seu disco mais recente, “Caligrafia”, pela internet, mostrando mais uma vez que não precisam do suporte de uma grande gravadora para cultivar sua base de fãs e manter-se em evidência, graças à internet.

Além dos sofisticados vocais de Vanessa Krongold, a banda formada por Mauro Motoki (guitarra, voz, teclado e composições), Habacuque Lima (guitarra e composições), Eduardo Filomeno (baixo) e Vlad Rocha (bateria) executa muito bem suas funções. Para quem gosta de rock alternativo, para quem se cansou da mesmice, o Ludov é uma boa pedida. Das minhas canções favoritas estão “Estrelas”, "Princesa", “Kriptonita”, “Reprise”, e “Dois a rodar”. Podem ter certeza que o Ludov faz um rock tupiniquim de excelente qualidade, só lhes faltam mais oportunidade.



clique aqui para ouvir mais músicas do Ludov.

O Pop gostosinho de Katy Perry

domingo, 24 de abril de 2011
Ela estourou com a música “I kissed a girl”, se destacou entre as diversas cantoras pop e emplacou um sucesso atrás do outro. Katy Perry, até seu nome soa como um chicletinho, repete a formula da canção hit e a explora até as últimas conseqüências em Teenager Dream, 2010. Como o próprio título do disco sugere, as músicas giram em torno da juventude americana, na qual os sonhos adolescentes estão recheados de todos os clichês possíveis, garotas de biquíni, desilusões amorosas, carros, festas, bebedeiras... Ingredientes certos para tornar Teenager Dream uma máquina de hits.

As músicas grudam, fazem você se jogar nas pistas, e mesmo sendo chiclete parecem não perder o sabor. O grande mérito é da própria Katy que tem uma voz agradável, consegue ser sexy sem muito esforço, sem sussurros insuportáveis que possam esconder seu voz ou exagero visual que possa ter mais destaque que sua música. Em Teenager Dream, a cantora exibe toda a potência vocal e também seu talento para criar refrões grudentos, destaque para a música que abre e dá nome ao disco, e também a dançante “California Gurls”, "Firework", a divertida “Peacock”, a misteriosa “E.T”, até a menos empolgante do disco "Not Like the Movies", consegue ser interessante.

Katy Perry encarna o melhor do pop atual e consegue mesclar com competência o moderno e o retrô em sua performance. Das cantoras pop que estão em evidencia é talvez a única que apresenta uma música divertida, bem humorada, gostosinha, tudo na medida certa.

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos - Otto

segunda-feira, 4 de abril de 2011
Tem certos artistas que nós costumamos dar atenção tarde demais, mas antes tarde do que nunca. Semanas atrás fui ao show do cantor pernambucano Otto, e me surpreendi com a qualidade da música, da banda, e da sua performance. Já tinha ouvido algumas músicas em trilhas de novela, ou através de amigos que curtem o som e seu estilo, mas nunca tinha prestado atenção, até que um dia baixei o seu disco mais recente, Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, e adorei.

O título do disco foi extraído da obra "Metamorfose", de Franz Kafka, e explica o inferno astral que o cantor vivia naquele momento, tinha se separado da mulher, perdeu a mãe e afilhada, e ainda estava sem gravadora. Mas, foi no fundo do poço que ele conseguiu gravar o álbum que é considerado por muitos o melhor de sua carreira. O disco foi lançado no final de 2009, traz uma sonoridade mais orgânica e menos eletrônica que os anteriores, a melodia se mistura aos ritmos regionais brasileiros com letras cheias de melancolia, em que o artista canta suas dores, saudades e inquietações.

O álbum reúne 10 faixas, sendo que oito são assinadas por Otto e duas são regravações, "Lágrimas Negras", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina (com participação da mexicana Julieta Venegas, que também canta "Saudade", já comentei sobre essa excelente cantora aqui no blog) e o samba-canção "Naquela Mesa", de Sérgio Bittencourt. Destaque também para as canções “Crua”, a roqueira “6 minutos”, a experimental "O Leite" ("Quando eu saí da tua vida / Bati a porta / Saí morrendo de medo / Do desejo do desejo de ficar"), essa com participação de Céu, e a regional "Janaína", uma homenagem à Iemanjá, ("Disse um velho orixá / Pra oxalá, pra acreditar / Pra não temer, temer, temer / Desses tempos verdadeiros / Tempos maus").

Enfim, apesar do disco escorrer por linhas e formas de caos, como o próprio Otto escreveu no encarte, podemos desfrutar de uma obra-prima da música brasileira, cheia de beleza e bom gosto. Afinal, podem nascer flores mesmo num canto de um quarto escuro.

Clique aqui e ouça "Crua".

O som e o sotaque arretado de Karina Buhr

segunda-feira, 21 de março de 2011
Quem curte música alternativa e de muita originalidade tem que conhecer o som de Karina Buhr. Baiana de nascença, mas pernambucana de alma e coração, Karina, integrante do Comadre Fulozinha, lançou seu primeiro disco solo no ano passado, conquistando a crítica e um público ávidos por novidades que fugissem do marasmo e previsibilidade da Música Popular Brasileira. O disco de estreia Eu menti pra você, não escapou das listas de melhores álbuns lançados em 2010.

Com uma voz meiga, mas língua afiada, Karina canta sobre diversos temas que vai do amor a guerra, com um discurso livre e original. Destaque para “Mira ira”, e os registros bélicos “Nassíria/ Najaf” e “Soldat”. A diversidade sonora e o colorido que emolduram suas canções escapam de uma definição de gênero e estilo, resultado da própria diversidade cultural em que viveu cercada. O sotaque carregado transmite ainda mais personalidade a sua música. Tudo é muito bem orquestrado do começo ao fim por Bruno Buarque (bateria e MPC), Mau (baixo), Guizado (trompete), Dustan Gallas (teclados e piano), Otávio Ortega (teclados e bases eletrônicas), Marcelo Jeneci (acordeon e piano), Edgard Scandurra e Catatau (guitarras).

Para quem respirou os ares de Chico Science e Nação Zumbi, do maracatu e da música de raiz, Karina Buhr não decepciona, certamente desponta no cenário musical como uma artista talentosa, moderna, multicultural, que dispensa rótulos e nos retira do estado de inércia, alguma coisa o ouvinte irá sentir, mesmo que seja estranheza, só não irá ficar indiferente. Apesar de desconhecida pelo grande público, Karina é sucesso na cena indie, e consegue dar seu recado em “Ciranda do incentivo”, uma crítica as leis de incentivo a cultura, “Eu preciso entrar no gráfico, no mercado fonográfico”.

Clique aqui e ouça "Eu menti pra você"

Para quem quiser baixar o disco clique aqui. A própria Karina deixou nos comentários do blog.

Quem é a rainha?

terça-feira, 1 de março de 2011
Quem pensa que só no mundo das divas da música pop é que existem disputas por mais visibilidade, engana-se. No mundo da Axé Music também. O carnaval vai começar, e Salvador é o palco ideal para mostrar quem é a musa, diva, a rainha do Axé. Alguns dizem que o posto de rainha do Axé continua sendo de Daniela Mercury, mas seu reinado vem sendo há muito tempo ameaçado por Ivete Sangalo, aquela que arrasta multidões, e pra esquentar ainda mais a briga tem Cláudia Leitte, cuja música é mais pop que Axé. Quem vê aquela falsa cordialidade em cima do trio elétrico, nem imagina o quanto elas pelejam para ser o destaque principal da festa, o melhor bloco, a melhor cantora, a melhor música, quem tem o melhor camarote, etc, etc, etc.

Ivete é elétrica, carismática, divertida, e é hoje a artista brasileira que mais vende discos, sendo que seus últimos DVDs ao vivo bateram recorde de vendas. Cláudia é performática, cheia de “invenções” malucas, já Daniela é mais, digamos, cultural, que busca ir além do só pular e cantar em cima do trio, ela tem um repertório mais elaborado, é pra se ver e ouvir. Nada contra nenhuma das três, mas é fato que todas procuram se destacar na frente dos holofotes e querem ocupar o posto de rainhas. Acho até que Daniela Mercury andou fazendo algumas concessões para não perder a notoriedade, visto que não goza mais da mesma popularidade de antes, e seus trabalhos atuais não são tão bons e interessantes quanto os primeiros de sua carreira, era outra visão da Axé Music (velhos tempos), mesmo assim, ela consegue oferecer um repertório que vai muito além do “tira o pé do chão”.

Enfim, caros leitores, a Axé Music é um produto do carnaval, sempre foi, está cada vez mais descartável, passou a festa perdeu a graça, reinventa-se outra música para o próximo ano. Então, aproveite e tire o pé do chão.


Bom carnaval a todos. Divirtam-se!



Clipe "Nobre Vagabundo" do ótimo disco Feijão com Arroz, Daniela Mercury.

O som viciante de Tulipa Ruiz – Efêmera

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Nunca um disco ou artista me conquistou com tanta facilidade. Efêmera, disco de estreia da cantora paulista Tulipa Ruiz, figurou entre os melhores lançamentos nacionais de 2010, em diversos sites e revistas especializadas. De fato, não deixa de ser surpreendente, mesmo porque em discos de estreia sempre fica faltando algum detalhe ou algo que não se encaixou muito bem, frustrando algumas expectativas, mas esse não é o caso de Efêmera, delicioso e perfeito da primeira a última música. A maioria das canções são composições da própria Tulipa, além disso, ela também trabalha com ilustração e assina o trabalho gráfico do disco. A voz lembra um pouco Gal Costa e as letras são leves, divertidas e comoventes, daquele tipo que ocupa sua mente sem pedir licença e ser chata.

Efêmera tem uma sonoridade que remete a Tropicália, mas vai muito além, os arranjos são bem minimalistas, aparentemente simples, mas extremamente sofisticados e harmonioso. O disco traz boas participações como Céu e Thalma de Freitas, bem sutis, mas que dão um tempero a mais no disco. A música que abre e dá nome ao álbum tem um ritmo bem envolvente, como um musical havaiano, e é a porta de entrada para o mundo de Tulipa. O momento mais calmo fica por conta da canção “Do amor” e a mais divertida “Pontual” brinca com a falta de pontualidade de alguém que perde a sessão de cinema, mas jura ser pontual numa próxima vez. “Brocal dourado” nos envolve num clima psicodélico e hipnotizante, já “As vezes” nos remete aos anos 80, e é, talvez, a mais pop do disco juntamente com “A ordem das arvores” , que eu simplesmente adoro, tem uma levada meio funk, cheia de grooves, é o momento certo para se soltar.

A música que encerra o disco “Só sei dançar com você” conta com a participação especial de Zé Pi(Druques), e fecha em clima de romance "Só sei dançar com você e isso é o que o amor faz...". Enfim, a variedade de estilos não prejudica a unidade do disco, pelo contrário, nos remete a uma série de boas sensações, é um verdadeiro remédio anti-monotonia.

Clique e ouça "A ordem das árvores":

Grande gravadora, pra quê?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Foi-se o tempo em que as grandes gravadoras, as chamadas majors, dominavam o comércio musical, hoje com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e com a facilidade de acesso a elas, nenhum artista precisa sucumbir às regras mercadológicas de uma gravadora. A não ser aqueles que ainda tem bom retorno na venda de CDs e DVDs, ou que preferem deixar a cargo dos profissionais da gravadora todo o trabalho de divulgação, marketing, agenda, enfim, todas as etapas de produção e agenciamento.

Antigamente os músicos da cena alternativa tinham como objetivo fazer parte do elenco de uma grande gravadora, era importante para se ter acesso midiático, bons produtores, e consequentemente conquistarem público. Essa passagem foi muito importante para muito deles se consagrarem no mercado nacional. Hoje o caminho é inverso, muitos artistas foram dispensados de sua gravadora e retornaram ao cenário independente, mas claro que com uma bagagem muito maior, é o caso do Pato Fu (ex SONY/BMG), por exemplo, mesmo não tendo a mesma exposição de antes, continuam evoluindo musicalmente, e ganhando notas na mídia. Há artistas independentes que aproveitam as novas tecnologias, como a internet, por exemplo, através do MySpace, LastFM, Youtube, e demais sites de relacionamento para divulgar seus trabalhos e lançar seu material físico por meio de selos e distribuidoras alternativas, a Tratore é uma delas, ou disponibilizando suas músicas para download em sites como da gravadora Trama.

As gravadoras independentes têm uma função satélite ou complementar no mercado fonográfico, cumprem o papel de descobrir e desenvolver novos talentos que podem ser assumidos posteriormente com menos risco pelas majors. Além disso, a produção independente acompanha com mais agilidade as constantes mudanças do mercado fonográfico. Enfim, as grandes gravadoras não podem mais ser vistas como a única via de acesso ao mercado musical. É possível garimpar um monte de artistas independentes bacanas na internet, não é uma tarefa fácil, devido a grande quantidade de informação, mas procurando a gente acha. Lucas Santtana, por exemplo, é um super músico e tem trabalhos interessantes. Tem também, Karina Buhr, Tulipa Ruiz (que descobri recentemente), tem Ludov, Trash Pour 4, entre outros.

Dê um play no video abaixo: